Cuiabá, MT, agosto de 2026
Divulgação
Guelda Andrade
Mato
Grosso convive com um dos cenários mais preocupantes do país quando o assunto é
violência contra a mulher. Entre 2019 e 2025, o estado registrou 338 feminicídios,
segundo dados do Observatório Caliandra, do Ministério Público de Mato Grosso,
e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Esses números evidenciam que o
assassinato de mulheres permanece entre os maiores desafios para o poder
público e representam vidas interrompidas, famílias desestruturadas e gerações
marcadas pela violência.
Somente
em 2025, 54 mulheres foram assassinadas e 89 crianças ficaram órfãs em
decorrência desses crimes no estado. Até junho de 2026, outros 22 casos já
haviam sido registrados, deixando pelo menos 23 filhos sem suas mães, conforme números
da Polícia Judiciária Civil (PJC-MT). Esses indicadores reforçam a urgência de
políticas permanentes de prevenção, proteção e garantia dos direitos das
mulheres.
Apesar
dos avanços proporcionados pela Lei Maria da Penha e pela tipificação do
feminicídio, o Brasil registrou, em 2024, 1.492 vítimas, o maior número desde a
criação desse tipo penal. Em 2025, os registros oficiais superaram 2 mil
mulheres assassinadas, de acordo com o Ministério da Justiça e Segurança
Pública, demonstrando que a violência letal contra as mulheres continua sendo
uma das mais graves violações de direitos humanos no país.
O perfil
das vítimas também revela profundas desigualdades. As mulheres negras
representam 67,5% dos casos, segundo o Atlas da Violência 2026, evidenciando
que o feminicídio é agravado por desigualdades sociais, raciais e econômicas.
Por isso,
o enfrentamento dessa realidade não pode se limitar à resposta penal. Muitas
mulheres permanecem em relacionamentos abusivos por medo, dependência
econômica, ausência de rede de apoio ou dificuldade de acesso aos serviços de
proteção. Romper esse ciclo exige acolhimento, fortalecimento da autonomia
feminina e políticas públicas capazes de agir antes que a violência alcance seu
desfecho mais cruel.
A
educação é uma das ferramentas mais eficazes para prevenir a violência contra
as mulheres. Diversos estudos demonstram que a permanência na escola amplia as
oportunidades de inserção no mercado de trabalho, fortalece o conhecimento dos
próprios direitos e reduz fatores historicamente associados à vulnerabilidade
feminina. Políticas públicas como creches, educação em tempo integral,
qualificação profissional, Bolsa Família e Pé-de-Meia ampliam oportunidades,
promovem autonomia e contribuem para reduzir situações de dependência e
violência.
Neste ano
eleitoral, essa discussão ganha ainda mais relevância. As mulheres representam
52,84% do eleitorado brasileiro e terão papel decisivo na definição dos rumos
do país. Não basta cobrar respostas quando a violência já aconteceu. É preciso
eleger representantes comprometidos com políticas públicas capazes de prevenir
o feminicídio, fortalecer a rede de proteção e garantir que meninas e mulheres
possam viver sem medo.
O país
precisa superar respostas simplistas e promover um debate público mais
qualificado sobre as raízes dessa violência. O enfrentamento do feminicídio
exige políticas integradas que ampliem a proteção às vítimas, fortaleçam sua
autonomia, promovam educação para a igualdade e assegurem que o Estado cumpra
seu dever de proteger vidas. Essa é uma agenda urgente, que exige compromisso
permanente, investimento público e ação efetiva.
Guelda Andrade é mestra em Educação pela UFMT, especialista em Gestão Escolar, servidora da educação pública e dirigente nacional da CNTE. Atua na defesa da educação pública, da valorização dos profissionais da educação e do fortalecimento das políticas educacionais brasileiras.
